PIRATARIA X INOVAÇÃO

Não faz muito tempo, dei de cara com uma faixa que anunciava uma promoção do tênis Reedok. Achei o preço espantoso, mas o que chamou mesmo a atenção foi a marca. Tênis Reedok? Não seria Reebok? Para minha surpresa total, era Reedok mesmo. Tratava-se de um tênis pirata, inegavelmente inspirado na famosa marca de tênis.
Aliás, você sabia que existe uma rede de fast food chamada McDuck, uma instituição financeira de nome Citic Group e um tênis batizado de Adidos? Pois é, são quase todas marcas piratas, a maioria de origem chinesa.
A China é campeã mundial da pirataria (seguida de Rússia, Índia, Brasil, Indonésia e Vietnã). Lá, se copia de tudo, de bens de consumo a marcas tradicionais. Até automóveis os chineses copiam! E, o que é mais inacreditável, já venderam carne bovina chinesa como brasileira.
Um ranking das marcas piratas mais vendidas no Brasil (boa parte importada do oriente) indicou que os óculos Mormaii, as bolsas Louis Vuitton, o tênis Nike e os relógios de luxo TAG Heuer estão nos primeiros lugares. Em estandes e lojas da R. 25 de Março, ponto tradicional de comércio do Centro de São Paulo, pode-se comprar um relógio Rolex por R$ 18,00. Se não fosse o preço, ninguém diria que é pirata.
As últimas notícias são de que a Polícia Federal e o governo brasileiro pretendem aumentar o rigor contra a falsificação e a pirataria. Já a Lei Anti-pirataria, de julho de 2003, prevê penas de até quatro anos de reclusão para quem vender produtos falsificados. A empresa que se sentir lesada pode ainda requerer ajuda ao INARF (Instituto Nacional de Repressão à Fraude) ou entrar com ação direta contra o pirateador. Nesses casos, cabe avisar que o processo pode ser longo.
Quem pretende proteger sua marca ou produto, não deve fazê-lo apenas no Brasil, mas lá fora também. Existem tratados de proteção ao direito autoral em todo o mundo, como o Protocolo de Madri (ao qual o governo brasileiro está para aderir). Por meio deles, é possível evitar problemas e dores de cabeça intermináveis.
Para quem trabalha com marketing e tem consciência do potencial das marcas, a pirataria soa como algo bizarro e, sob vários aspectos, injusto. Mais do que isso, parece resultado de ganância com pitadas de incompetência para o negócios. Não seria melhor investir em algo novo, criativo e principalmente lucrativo ao invés de copiar uma marca já consolidada? Começar usando a fama de outro pode ser mais fácil do que começar do zero, mas será inteligente? Não é o caso de aconselhar os “empresários parasitas” a criar marcas próprias e se lançar no mercado com algo inédito e original?
Como já vimos, a China é vista como uma espécie de Meca da pirataria. Mas, o que muitos esquecem - e provavelmente não sabem – é que ela também é berço de empresas inovadoras, que praticamente começaram do zero. Alguns ex-fabricantes de produtos piratas estão abandonando a imitação e partindo para marcas próprias. Boa parte deles, fazem tanto sucesso que estão conseguindo desbancar marcas tradicionais. O que os chineses (entenda-se governo e iniciativa privada) pretendem agora é lançar produtos inéditos e de alto valor agregado. Para isso, estão investindo em educação e aumentando, ano após ano, os gastos com pesquisa. São os mesmos chineses que exportam produtos piratas apostando na inovação.
Como surge a inovação? Ela é resultado de diversos fatores: novos clientes, novos canais, novos métodos de fazer negócio, novos mercados e novas competências. Investimentos maciços e constantes em pesquisa, bem como a avaliação dos desejos, atitudes e comportamentos do consumidor quase sempre resultam em novos produtos.
A cultura da inovação deve ser mantida dentro da empresa. Do mecânico de empilhadeira à secretária da direção, todos precisam estar comprometidos com a inovação. Só dessa forma ela se torna ampla e efetiva.
Os colaboradores devem saber o que a empresa precisa no que diz respeito à inovação, o que só é possível por meio da comunicação. Os canais entre os diversos setores, departamentos, gerências e salas não podem permanecer fechados. Muito pelo contrário. Quanto mais aberto e quanto mais troca de informações entre os setores, maiores as chances de se conseguir algo novo em matéria de produtividade, competência e novos produtos.
Ao invés de se dar ao trabalho de copiar algo já feito, o produtor devia criar uma nova marca, um produto inovador, algo que não dependa da sombra de outra empresas. Não seria correto? Idéias surgirão, competências se desenvolverão e o lucro, acabará aparecendo. Talvez em quantidade maior. E legalmente.



